Me surpreendi com o tanto de informação que encontrei sobre você atualmente, e o quanto
de informação tem de sobre como começou. Pode contar um pouco sobre como era a sua vida
antes de 1992, com o grupo “Razões Inversas”?
Antes de 1992 eu fazia workshops e assistia teatro, estava começando a me encantar com o que via, principalmente com as peças do Antunes Filho, do Gerald Thomas e dos grandes atores como Antonio Fagundes, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres. Eu ia muito ao teatro. Fiz cursos com Gabriel Vilella, Carlos Alberto Sofredini, e com o Marcio Aurélio fiz um teste e entrei na companhia dele para fazer Ricardo II, do Shakespeare. Foi aí que começou minha amizade com o ator Leonardo Medeiros que viria a dirigir algumas peças minhas depois, como Perpétua. Também fiz parte de um grupo dirigido or Marinho Piacentini, que viajou a américa latina desde o Paraguai até o México fazendo um espetáculo de teatro-dança - Comala. Era mágico, guardo lembranças fabulosas.
Você fez grandes peças, com grandes nomes do teatro brasileiro; filmes importantes e ainda
participou de novelas. Em uma entrevista para “O Estado do Maranhão”, você comentou sobre
uma conversa com Walter Salles, em que discutiam sobre o fato do brasileiro assistir mais
novela do que o cinema e o teatro. Isso te aborrece de algum modo? Por quê?
De jeito nenhum, é uma questão econômica, todo brasileiro tem uma telvisão e é grátis e as novelas acabam por ser o entretenimento da maioria, é fato. Eu sempre adorei novelas e agora estou fazendo a minha terceira - Morde e assopra, na Rede Globo. Estou aprendendo muito, principalmente com Cássia Kiss que me ensinou a falar baixinho e devagar. O papo com o Walter Salles foi um dia em que ele me ligou para fazer a locução do trailer do Linha de Passe e ficamos horas conversando. Eu disse que estava indo fazer uma novela - A Favorita - e ele me perguntou por que. Eu disse que é porque o brasileiro assiste tv, é o grande mercado, é negável. Na verdade eu acho que é importante fazer todos os veículos, procurar grandes papéis, fazer escolhas certas, porque a carreira de um ator se faz muito pelas escolhas dos personagens que ele quer ou pode fazer. Teatro e cinema no Brasil são para uma minoria, hoje a cultura está nas mãos dos diretores de marketing das grandes empresas que patrocinam cultura e do governo que faz os editais de dinheiro público, e aí a gente fica a mercê dos jurados que podem ir ou não com a nossa cara. Devo dizer que tenho sorte, mas odeio política, apesar de ser inerente a todos ter que fazer, é do ser humano. Mas eu me considero um péssimo político, prefiro minha solidão, odeio mesquinharias e picuinhas, mas como fugir delas?
Em julho de 2010, teve o “Festival da Companhia Satélite – 15 anos de teatro”. O
jornal “Cruzeiro do Sul” publicou uma matéria dizendo: “Dionísio Neto não quer mais
saber de escrever: ‘Já falei tudo o que tinha para falar’". Já que a sociedade está
em constante mudança, e continuamos vendo tanta coisa errada, você não acha que seria
interessante escrever sobre isso? Concordo que, a maioria dessas mudanças são somente
superficiais, e que na verdade a base dos problemas continua a mesma. Mesmo assim, isso
não seria um uma espécie de inspiração para novos textos?
Eu já escrevi muitos textos para teatro, uns 15, atualmente estou mais interessado em usar minha energia para publicá-los, fazer um livro da Companhia Satélite e não em novas produções, apesar que é natural em mim pensar em peças o tempo todo. Mas quero me dedicar a outras mídias, como o cinema, a literatura. Há que se fazer bom uso do tempo. Estou usando meu tempo para produzir e ensaiar otexto que Walcyr Carrasco escreveu para mim - DESAMOR. Ele me ligou agradecendo porque eu o tornei um autor melhor, eu o inspirei como ator a escrever um lindo texto para teatro e com esta montagem quero e vou realizar um sonho antigo - viajar pelas capitais brasileiras com teatro. Não há nenhum prazer que se compare a viajar com um espetáculo de teatro, é mítico! Mas no futuro quem sabe, eu volte a escrever para teatro, é inevitável.
Para a Companhia Satélite, você escreveu 10 peças, sendo 3 inéditas e 1 publicada em livro
pela Handam Editora, na Coleção Teatro Brasileiro. Qual é a expressão da Companhia?
A Companhia é plural, faz de textos contemporâneos a clássicos (Kafka, Lorca), é uma companhia de teatro pop, que se utiliza das influências de outras artes para estabelecer o diálogo com o teatro, nós tivemos uma sede por 3 anos que teve seu início, seu auge e agora fechará as portas. Estou muito feliz com isso, é insano manter um espaço cultural no Brasil, infelizmente, mas assim é.
Atualmente, está gravando a novela “morde e Assopra”. O que pretende fazer no futuro? Se
um dia fosse para escolher outra profissão, escolheria o que?
Quero fazer na tv e no cinema personagens tão importantes quanto os que eu fiz no teatro, pois eu ainda sou um bebê nestas outras linguagens. Apesar de ter trabalhado em grandes produções como Carandiru, ainda me sinto sub-utilizado nestes meios. Mas não há regras, assim é. Batalho todos os dias por grandes papéis, é uma guerra e tem o fator sorte também, sei que um dia vou conseguir fazer um grande filme e um grande papel, com uma grande interpretação, aí ninguém me segura... Se eu não fosse ator, autor e diretor eu trabalharia com moda, porque tenho uma paixão inexplicável por moda, tenho amigos que são grandes no Brasil como Reinaldo Lourenço e Paulo Borges, que me ensinaram, a desenvolver essa paixão.
Pelo o que percebi, você escreveu peças com sentimentos muito fortes. Que provocava e
impressionava a plateia. Chegou a ser considerado precursor da retomada da dramaturgia
brasileira pós Nelson Rodrigues. Suas obras tem alguma ligação com sua vida pessoal?
Totalmente, vida e arte absolutamente misturadas. No começo da minha carreira eu era mais visceral e verborrágico, quase como que um punk rock, agora estou ficando mais erudito, interessado em aprimorar a minha técnica em todos os sentidos. É a maturidade. Gosto de envelhecer, sem perder o frescor da juventude, é claro.
Depois de 1992, atuando em Ricardo II, você entrou para o CPT, onde se formou como ator e
dramaturgo, em 1995. Como foi trabalhar com Antunes Filho? O que era comentado sobre o
teatro brasileiro naquela época? Como vocês (atores) eram vistos?
Antunes foi meu grande mestre, fiquei 3 ans trabalhando e convivendo com ele, nos falamos até hoje. Ele me ensinou a olhar para o ser humano antes do artista, para a maravilha e o milagre da vida, e depois para a cultura, mas nunca para o mercado, acho que aí está uma falaha dele, é preciso formar atores que tenham a consiência do mercado e o CPT é uma bolha, uma bolha maravilhosa, mas uma bolha. Também tenho como referências o José Celso e o Gerald Thomas, que me ensinaram, cada um a seu modo, a ver a vida e a arte sob diferentes prismas até que eu encontrasse minha voz própria, que é pop, absolutamente pop.
Vi na internet comentários de 2003, em que você dizia que o seu sonho era que suas peças
virassem filmes, e que isso já estava acontecendo com “Perpétua”. Como vai esse sonho?
Finalmente encontrei um diretor para PERPÉTUA - José Eduardo Belmonte. Ganhamos dois editais públicos para fazer o filme - um de roteiro e outro de produção. Aconteceram algumas maracutaias em Brasília que prenderam a verba, mas uma hora o filme sai. Perpétua veio do cinema, foi inspirado nele, nada mais natural que volte a ele. Demora muito, mas assim é. O sonho ainda me move, sempre, senão não teria graça nenhuma. É preciso poesia para se viver.
Em “Cameleões Dourados do Paraíso”, história que se passa em uma tarde de verão intensa,
a bandeirante Pirilena vai ao apartamento de seu vizinho, o traficante de peles, Ramires, para
fazer um trabalho escolar. No meio da tarde são surpreendidos pela invasão domiciliar do
ecologista radical, Colombo. Você fez a encenação dessa peça? Se não, pretende fazer?
Eu não consigo montar essa peça, há algum mistério nisso. Eu me inspirei em Blated de Sara Kane para escrevê-la, foi uma época em que eu estava e ainda estou apaixonado pela dramaturgia inglesa contemporânea - cheguei até a fazer um workshop com mestres do Royal Court Theatre de Londres, um teatro de novos autores, centrado na dramaturgia. Aprendi muito lá. Não pretendo montar essa peça, mas se alguém quiser eu vendo os direitos.
Lorca era um grande dramaturgo. Considerado o maior autor espanhol desde Miguel de
Cervantes. Escreveu poemas e peças maravilhosas. Como foi pra você traduzir e dirigir a peça
“A Casa de Bernarda Alba”? Pretende fazer o mesmo com outras peças dele?
Não pretendo fazer outra peça dele não. A casa de Bernarda Alba foi uma experiência divina, porque eu queria fazer um espetáculo absolutamente artesanal, sem eletricidade nenhuma, a luz de velas, com música vivo tocada pelas próprias atrizes, uma experiência surrealista. Consegui. A montagem foi muito bem sucedida, fizemos em uma casa e depois na FLIP de Paraty, onde paramos a cidade. Foi uma experiência mágica que só o teatro porporciona e o elenco era perfeito e tive a assistência de Sergio Penna, o mestre dos magos da preparação de atores no Brasil. Ele soltou os duendes do Lorca e as atrizes eram fantásticas, eu entrava em cena as vezes como o Pepe Romano-minotauro que é uma figura recorrente em minhas montagens. Sou apaixinado por Lorca, ele foi um grande poeta que morreu tragicamente por ser homossexual em uma época de ditadura, assim como Oscar Wilde. Visionários pagam o preço cara de serem cristos da humanidade, fazer o que?
Mesmo depois de quase 20 anos de profissão, você não era muito conhecido, e como
comentou em um site: “...para eles antes eu era algum coitado, que estava tentando ser
ator...”. Qual é o conselho que você da para os que querem seguir essa carreira?
Como diz Fernanda Montenegro - desista!